A Copa do Mundo, mais do que os jogos olímpicos, é o único evento desportivo com audiência suficiente para nos conscientizar do plural que somos. Essa janela que se abre a cada quatro anos é muito maior do que qualquer placar.
O que está acontecendo nos estádios de 2026 vai além da competição futebólista. Cada seleção representante de uma nação com seu povo torcedor propaga suas origens por meio de símbolos, músicas, heróis, comidas, tradições e etc. Esses elementos, que muitas vezes dormem na memória coletiva sem voz, de repente eis que surge um palco incomum, global, com bilhões de pessoas assistindo. A Copa não cria essas culturas. Ela as convoca.
É o momento em que o mundo para de ser apenas ‘globalização homogênea’ e se torna um espelho da multiplicidade cultural e diversidade real. Literalmente cada nação, que compete, veste a camisa.
O que a Copa faz que nenhuma rede social faz
A Copa funciona como um “acelerador cultural”, sendo mais que um fenômeno viral das redes sociais se tornar real. Ela não apenas distribui imagens pelo mundo; ela propicia o contexto emocional para que essas imagens sejam recebidas com abertura.
Quando você está assistindo a um jogo do mundo inteiro, sua percepção do “outro” muda. A diferença para de ser estranheza e começa a ser curiosidade, ou melhor, aprendizagem intercultural.
Memória que não tinha palco
Michel Kuka Mboladinga veste um terno, ergue um braço e não se move por noventa minutos. A pose reproduz a estátua de Patrice Lumumba, o primeiro-ministro congolês assassinado por forças colonizadoras no início da independência do país. É uma homenagem silenciosa a um herói que o colonialismo fez questão de apagar.

Fora da Copa, essa performance seria um ato político local, visto por quem já conhece a história. Dentro da Copa, com câmeras do mundo inteiro nas arquibancadas e jornalistas buscando os rostos da torcida, ela vira manchete global.
Pessoas de países que nunca ouviram falar da República Democrática do Congo começaram a pesquisar quem foi Lumumba. Aqui o futebol deu palco para uma aula de história decolonial que nenhum museu, nenhuma campanha cultural e nenhum algoritmo de rede social teria conseguido distribuir com a mesma força.
A tradição que precisava de uma plateia
A “remada viking” tem menos de um ano de existência. Foi criada por um professor do ensino fundamental norueguês que queria algo autenticamente nórdico para representar a seleção no Mundial, e chegou ao óbvio: os vikings remavam juntos para a batalha, no mesmo ritmo, sem hierarquia dentro do barco. O gesto, em si, é simples, porém carrega elementos significativos históricos da humanidade. O que a Copa fez foi dar para a este gesto uma plateia estimada em bilhões .

O mesmo acontece com Shosholoza, o antigo cântico zulu cantado pelas ruas de Soweto às três da manhã quando a África do Sul classificou para o mata-mata pela primeira vez na história. Ou com os tambores e danças tradicionais que a torcida de Gana levou para as ruas de Toronto antes de sua estreia. Essas expressões existem há séculos, a Copa oportuniza indubitavelmente a disseminação de conhecimento (inter)cultural.
A diáspora que voltou para representar
Esta Copa traz reflexões profundas do quando somos cultura e pertencentes a um lugar.
Curaçao, uma ilha caribenha de 160 mil habitantes, chegou ao seu primeiro Mundial com 25 dos 26 convocados nascidos na Holanda. Filhos da diáspora, escolhendo representar a terra de origem que muitos nunca pisaram, porém que carregam no sangue.
Em 40 das 48 seleções, há também jogadores atuando por países onde não nasceram. Marrocos convocou 19 atletas nascidos em países europeus. A Copa está revelando que identidade cultural é mais teimosia do que geografia, e que a globalização não apagou as raízes, ela apenas espalhou as pessoas que as carregavam.
O futebol é popular mundialmente porque respeita e honra as diferenças. A Copa não elimina o que é particular em cada povo, ela oferece o único palco do planeta onde essas particularidades são vistas, ao mesmo tempo, e por todo mundo. Nas entrelinhas, ecoa que podemos ser iguais em nossas diferenças. O torcedor que sai às ruas de pijama às três da manhã para soar uma vuvuzela não está só comemorando um gol: está dizendo ao mundo que existe, que tem história, que tem cultura.
É exatamente esse tipo de leitura a respeito de como culturas se encontram, se tensionam e se afirmam, que move o trabalho do DRI UniFacens!
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*Texto por DRI UniFacens






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